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Vinho e vidro de embalagem: Contributos durienses

Vinho e vidro de embalagem: Contributos durienses.

José Amado Mendes
Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

1. INTRODUÇÃO

A historiografia do vidro em Portugal, não obstante ter já completado mais de um século - desde que Joaquim de Vasconcelos e, sobretudo, o incansável Francisco de Sousa Viterbo lançaram as suas bases, respectivamente em 1887 e 1902 -, continua a registar numerosas lacunas, tanto no que concerne ao sector propriamente dito, como a empresas e empresários, a artistas e a técnicos vidreiros, aos produtos e respectiva proveniência. Não sendo, aliás, caso único, devido a uma espécie de “mito das origens” que marcou, durante muitas décadas, a produção historiográfica portuguesa, também, neste caso, o período mais recente tem sido, por vezes, o menos estudado. Basta recordar que a obra de Vasco Valente, intitulada O Vidro em Portugal (publicada em 1950 e considerada, por alguns, como uma espécie de “bíblia”), nada nos diz acerca da indústria vidreira em Portugal, desde os inícios do século XX.

Ora, foi exactamente a partir dessa altura que se verificou uma profunda revolução no ramo, a qual passou pela automatização de grande parte do fabrico, pela especialização e autonomização dos segmentos hoje existentes - vidro plano, vidro de embalagem e cristalaria - e pela transformação da indústria vidreira, de uma actividade artesanal, muito dependente do know-how importado, cujos produtos, salvo raras excepções, apresentavam um baixa qualidade, numa das indústrias portuguesas mais competitivas e prestigiadas, tanto no país como no estrangeiro.

Uma das ideias feitas sobre a evolução do vidro, em Portugal, consiste em subvalorizar ou mesmo esquecer o importante contributo que algumas localidades têm dado à vidraria, para além, obviamente, da Marinha Grande que, desde a 2.ª metade de Setecentos, se transformou na capital do vidro e, mais recentemente, também na dos moldes. Refiro-me, por exemplo, ao Covo-Oliveira de Azeméis, a Ílhavo e à Vista Alegre - frequentemente mais associada à porcelana que ao vidro - e às margens do Douro, como, entretanto, veremos.

Recordarei, antes de prosseguir, que aquilo que acabo de enunciar, de forma sucinta, é devidamente esclarecido e fundamentado, num estudo mais desenvolvido, intitulado História do Vidro e do Cristal em Portugal, há pouco publicado (Lisboa, Edições INAPA, 2002).

2. ORIGENS DA INDÚSTRIA VIDREIRA NO VALE DO DOURO

As origens da produção vidreira nas margens do Douro, fundamentalmente na zona de Vila Nova de Gaia, remontam ao tempo da Revolução Liberal. Todavia, além de não dispormos ainda de um estudo desenvolvido acerca do assunto, escasseiam as respectivas fontes. Restam-nos, pois, informações dispersas, das quais se pode inferir o que, seguidamente, passo a sintetizar.

Entre os anos de 1830 e os finais do século XIX, terão existido naquela área, pelo menos, duas vidrarias: uma oficina e uma manufactura. Vejamos o que sobre elas se conseguiu averiguar.

Fábrica de Paço de Rei. Acerca desta escreveu Gonçalves Guimarães, após aludir a outras unidades industriais localizadas em Gaia: «Também no sector vidreiro instala-se uma unidade em vila Nova de Gaia mas que parece ter funcionado apenas depois da vitória liberal: Francisco da Rocha Soares (filho) montou na sua quinta de Paço de Rei uma fábrica de vidro em data anterior a 1839, a qual laborou pouco tempo» (GUIMARÃES, 1997: 59). Segundo informa o mesmo autor, ainda existem ruínas daquela unidade, das quais reproduz uma fotografia (idem: 60).

Pouco mais se sabe, acerca desta unidade. Vasco Valente, reportando-se aos negócios do dito empresário, Francisco da Rocha Soares, falecido em 1857 (o qual obteve considerável sucesso com a sua fábrica de cerâmica de Miragaia, inclusive exportando os respectivos produtos), notou: «Na sua quinta de Paço de Rei, em Mafamude, montou, também, uma fábrica de vidros, empresa que lhe acarretou grandes dispêndios e prejuízos» (VALENTE, 1936: 78-79).

Na ausência de outras informações, pouco mais poderemos acrescentar. Pinho Leal (no seu Portugal Antigo e Moderno, ao focar a freguesia de “Mafamude”), afirma, em 1875: «Há, nesta freguesia, muitas e boas quintas, uma fábrica de fundição de panelas de ferro, fábricas de louça (de barro preto e de faiança), uma fábrica de vidros e várias de tecidos de linho e algodão». A fazer fé neste testemunho, a Fábrica de Paço de Rei ainda estaria activa, em 1875. Ou ter-se-ia Pinho Leal equivocado, confundindo-a com a do Cavaco, a que, entretanto aludirei? Inclino-me mais para esta segunda hipótese.

Por outro lado, também não parece confirmar-se a existência de uma outra fábrica de vidros - Fábrica de Vidros do Bom Sucesso, localizada em Vila Nova de Gaia, em, 1825 (COSTA,1994: 100) -, como, aliás, já foi notado por G. Guimarães (op. cit.: 187, n. 112).

Fábrica do Cavaco ou Fábrica do Cais do Vale da Piedade. Esta, também localizada na margem esquerda do rio Douro e a jusante da anterior, foi instalada em 1853 e terá laborado até finais de Oitocentos.

Por ter trabalhado cerca de meio século, pela competência técnica dos seus fundadores (franceses), pelos produtos fabricados e pela mão-de-obra ocupada, as informações sobre ela são mais abundantes, pelo que sublinharei, em seguida, as que considero mais significativas.

O referido ano da fundação, 1853, deduz-se das declarações feitas pelo seu responsável, aquando do Inquérito Industrial de 1881, das quais consta a seguinte: «Existe há 28 anos». Antes de analisarmos a sua evolução, nas cerca de três décadas decorridas entre 1853 e 1881, vejamos algo acerca do desenvolvimento da mencionada vidraria, nos primeiros doze anos de existência (1853-1865).

A Fábrica do Cavaco já apresentou os seus produtos, na Exposição Industrial do Porto de 1861. Foram também expostos vidros da Real Fábrica de Vidros da Marinha Grande e da Fábrica do Covo, Oliveira de Azeméis. Referindo-se àquela, escreveu um observador coevo: «A par do pequeníssimo contingente da Marinha [Grande], sobressaem as largas vidraças e belas redomas da fábrica do Cavaco, em Vila Nova de Gaia, que tanto crédito dá à perícia técnica dos directores, os senhores André Michon e Casimir Pierre». E acrescenta: «As redomas, principalmente, chamam a atenção pela barateza do seu custo, e dão explicação ao abatimento de preço, que se havia verificado nos armazéns de venda. Pessoas vimos admirarem o preço de 4$000 réis inscrito numa redoma, de secção oval, e o de 1$500 noutra, de secção circular» (LUCIANO, 1861: 93).

Quatro anos mais tarde, os vidros da Fábrica do Cavaco compareceram, igualmente, na Exposição Internacional do Porto 1865 (a primeira realizada na Península Ibérica, para a qual foi edificado o Palácio de Cristal, à semelhança do famoso Crystal Palace, destinado à 1.ª Exposição Universal de1851, em Londres), tendo sido uma das seis unidades do país ali representadas.

Tratava-se do expositor n.º 1 287, assim descrito no respectivo catálogo: «André Michon Casimir Pierre, Vila Nova de Gaia.- Mangas de vidraça por estender, redomas ovadas, quadradas, cilíndricas, telha de vidraça, vidro cortado etc.» (Catálogo da Exposição do Porto. 1865, 1865: 88).

Das informações transcritas podem inferir-se:

1. A iniciativa, como aliás muitas outras no sector, entre os séculos XVI e XIX, ficou a dever-se a estrangeiros, no caso presente franceses. Tratava-se de dois empresários e não de um, como poderia deduzir-se da forma como os nomes estão indicados no dito catálogo de 1865 (este lapso detecta-se noutras obras, onde “Casimir Pierre” aparecem como se fossem apelidos de André Michon). Acrescente-se que André Michon, além de empresário, era ainda um técnico vidreiro prestigiado, inclusive como fornalista. Explorou também, durante algum tempo, uma fábrica de vidraça na Figueira da Foz (em Buarcos, próximo do actual cemitério), a qual foi fundada provavelmente em 1858 (MENDES, 1984: 240).

2. A manufactura do Cavaco dedicava-se ao vidro plano, vulgarmente chamado vidraça, especialidade que se havia aperfeiçoado consideravelmente em França (de modo especial, através dos processos de vidro coado ou vazado e da produção de mangas). O sector do vidro de embalagem, de que falarei posteriormente, só mais tarde viria a desenvolver-se e a autonomizar-se, entre nós.

Ao fim de quase três décadas de funcionamento, no Inquérito Industrial de 1881 - fonte de importância extraordinária para o conhecimento da industrialização, em Portugal, nos primeiros três quartéis de Oitocentos -, fornece alguns dados do maior interesse sobre a Fábrica do Cavaco. Aí se pode ler:

«Existe há 28 anos [portanto, como se disse já, desde 1853], sob a direcção do dono, que é em pessoa o construtor do forno, levantado em cada campanha. Tem dado lucros consideráveis, mas há anos que os preços de venda baixaram consideravelmente pela concorrência da fábrica da Marinha Grande. Emprega 18 operários, franceses e portugueses. Os primeiros são 4, vencendo, 1, 1$800 réis e, 3, a 1$600 réis ao dia; os segundos, carregadores e serventes do forno, são 14, com salários de 320 a 240 réis por dia de dez horas úteis de trabalho. Não foi declarada a importância da produção, que acaso poderá avaliar-se, a serem exactos os números acusados de consumo em: carvão de pedra - 500 toneladas; soda - 40 toneladas; seixo (de Crestuma) - ? Cal (da Figueira) - ?» (Inquérito Industrial de 1881. Relatório…: 271-272; Inquérito directo. II parte, visita às fábricas, livro 2.º: 183).

Que ilações poderão extrair-se do exposto? Tratava-se já, para o meio industrial português, de um média empresa (com cerca de duas dezenas de operários e ainda não mecanizada) que poderemos incluir na categoria de manufactura. A tecnologia utilizada e os métodos produtivos eram, por certo, de origem francesa, pois os 14 operários portugueses apenas desempenhavam funções acessórias, designadamente como “carregadores” e “serventes do forno”. E, como o saber-fazer especializado, sobretudo se importado, tem um preço substancialmente mais elevado que o trabalho local, os técnicos franceses ganhavam, em média, cerca do quíntuplo dos carregadores e ajudantes portugueses.

Posteriormente, as informações relativas à dita vidraria começam, novamente a rarear. Em 1887, referindo-se ao estado da indústria do vidro no País, sublinhava Joaquim de Vasconcelos: «No Museu Industrial do Porto [que havia sido inaugurado recentemente], estão representadas as fábricas do Sr. Michon, do Cabo Mondego e a da Marinha Grande. Esta última, que produz variadíssimos objectos (cerca de 2 000 números), organizou uma exposição muito interessante, que produz belíssimo efeito». E acrescente o autor citado: «É inegável que a indústria do vidro tem prosperado e trabalhado, não há dúvida, mas parece-nos que tem ainda de fazer um grande esforço para excluir do mercado nacional artefactos [importados] que são triviais e indispensáveis. Basta recordar só uma espécie: as garrafas pretas e brancas para vinho, que importamos em grande escala, e que representam uma quantia avultada» (VASCONCELOS, 1983: 107).

A Fábrica do Cavaco ainda estaria activa em meados dos anos de 1890, segundo uma carta da empresa dos sucessores de André Michon e Casimir Pierre, datada de Vila Nova de Gaia, 11 de Junho de 1895 (GUIMARÃES, 1997: 75). Terá encerrado pouco depois, em data desconhecida.

3. SUCESSO DA INDÚSTRIA DE GARRAFARIA NAS MARGENS DO DOURO

Até finais do século XIX, as unidades vidreiras instaladas, em Portugal, eram polivalentes e, logo, não especializadas. A maior parte, tendo começado por produzir vidraça, veio depois a dedicar-se também à produção de vidro de embalagem e de numerosos outros objectos, genericamente incluídos no ramo da cristalaria.

A especialização, por sectores, não obstante uma ou outra tentativa levada a cabo ao longo do século XIX, só viria a concretizar-se, verdadeiramente, a partir de 1889-1890, com a instalação, no Seixal, da Fábrica da Amora, exclusivamente dedicada à produção de garrafas comuns, para vinho e outras bebidas.

Portugal seguia, afinal, na senda daquilo que, cerca de uma década antes, já se verificava em alguns outros países, como era sublinhado por um empresário vidreiro, em 1881: «O fabrico da garrafa preta ou verde é no estrangeiro uma indústria à parte e as fábricas, assim como os operários que as fazem, não se ocupam de outra coisa, nem sabem mais nada, podendo desta forma produzir muito e barato» (Inquérito Industrial de 188. Inquérito directo, livro 1.º: 1881: 367).

Quanto à vidraça, devido à maior complexidade do processo e aos elevados custos do investimento, só em 1941 se deu passo análogo, com o arranque da COVINA, em Santa Iria da Azóia, nas proximidades de Lisboa.

Considerando apenas o vidro de embalagem, de acordo com o título do trabalho que me propus apresentar, a semiautomatização, primeiro, e a automatização, em seguida, levaram a circunscrever a produção a um número reduzido de localidades e de fábricas.

Numa primeira fase (inícios do século XX), a Amora concentrou a produção da garrafaria preta. A propósito, sublinha José Pedro Barosa: «a Amora concentra [em 1903] a totalidade da produção da garrafaria “preta”, isto é, em vidro escuro. Continua apenas, nas outras fábricas, a produção de garrafas em vidro branco, geralmente subproduto da produção de vidraça, cujo vidro (esverdeado) é partilhado com aquela produção» (BAROSA, 1996: 68).

Mais tarde, novos centros de produção automática de garrafa preta se foram constituindo. Assim, após a desactivação daquela fábrica, a produção automática de garrafaria ficou a ser assegurada, como o é actualmente, por fábricas modernas, de produção automática, localizadas, respectivamente, na Marinha Grande, na Fontela-Figueira da Foz e em Avintes-Vila Nova de Gaia. Pela sua relação com a temática do presente Encontro, vejamos, em traços largos, as origens e a consolidação deste último e importante pólo vidreiro.

Durante aproximadamente duas décadas (anos 1890-1919), a tradição da indústria vidreira, nas margens do Douro, é interrompida. Assim, a garrafaria ali utilizada era fornecida por unidades, situadas noutras zonas do país, ou importada. Foi então que os responsáveis pela empresa proprietária da já referida Fábrica da Amora (Companhia das Fábricas de Garrafas na Amora) resolveram instalar uma fábrica de garrafas, junto ao rio Douro, desta vez na margem direita. Com efeito, em 1918 (14 de Março), a Câmara Municipal do Porto autorizou a dita sociedade a construir um edifício em terreno pertencente à Quinta do Freixo, em Campanhã. Aí viria a laborar uma importante fábrica de vidro de embalagem, durante precisamente meio século (1919-1969). Nas respectivas instalações, remodeladas e adaptadas, está actualmente instalada a sede da empresa de construção, Mota & C.ª.

3.1. Período de transição: 1919-1930

Pouco mais de ano e meio após a concessão da licença, pela Câmara Municipal do Porto, para a dita construção, no Jornal de Notícias (de 26 de Outubro de 1919), era dado grande relevo à inauguração da Fábrica de Rego Lameiro, através de uma extensa reportagem, ilustrada fotograficamente.

O título do relato, embora um tanto extenso, é elucidativo do entusiasmo com que o jornalista aplaudia aquele evento: «Sucursal no Porto da Fábrica de Garrafas da Amora. Mais uma demonstração eloquente do engrandecimento e valor industrial da cidade do Porto. A inauguração d´uma grande fábrica que honra sobremaneira a iniciativa portugueza - O que pode o capital, aliado ao trabalho produtivo e fecundo - Notas impressivas d´uma visita e “reportage” d´uma festa».

São descritas as instalações (dois grandiosos pavilhões e suas adjacências), as gigantescas chaminés (com a altura de 42 e de 28 metros, respectivamente), o sector da composição, os fornos, a tecnologia instalada, a capacidade produtiva e a mão-de-obra ocupada. Esta era constituída por 450 operários; a fábrica tinha laboração contínua e a sua capacidade de produção semanal atingia as 150 000 garrafas. Quanto à capacidade do forno (a tanque), pode ler-se: «Também tivemos ocasião de observar o funcionamento daquela grande fornalha que pode comportar 110 toneladas de massa». São ainda referenciados os processos de fabrico, semiautomático (ilustrado, através de uma imagem) e manual.

Poder-se-á perguntar: que factor ou factores terão induzido os responsáveis, pela Fábrica da Amora, a instalar uma moderna e bem apetrechada unidade vidreira, no Norte do País? Ao invés do que sucedeu com a deslocação da indústria vidreira, de Coina para a Marinha Grande, em meados do século XVIII - em que o principal factor atractivo foi a proximidade do combustível, em abundância, no Pinhal do Rei, situado muito próximo -, no presente caso o apelo já vinha da parte de um mercado com grandes potencialidades, numa região vinícola por excelência. É que o abastecimento de energia, de importância fundamental na produção do vidro, com o vapor e a electricidade, havia-se libertado da lenha - e, no caso de indústrias como a têxtil, também da água -, isto é, dos constrangimentos impostos pela natureza.

No fundo, esta ideia encontra-se expressa pelo autor da mencionada reportagem, destacando a necessidade de, no rescaldo de uma guerra que tinha implicado pesados encargos (como é sabido, a I Guerra Mundial, de 1914-18), se desenvolver a produção industrial e agrícola, auxiliada pela actividade comercial, ao sublinhar: «No artigo especial a que nos dedicamos [ou seja, no vidro], enlaçamos aquela tríplice cooperação: no país do vinho, uma das mais valiosas produções do nosso solo agrícola gera um movimento comercial de exportação, que é o mais importante, e o qual nós auxiliamos, fornecendo pelas nossas empresas fabris o invólucro indispensável - a garrafa -, conseguindo nacionalizar uma indústria, procurando afastar do mercado a concorrência estranha, substituindo-a completamente para que o trabalho, a mão-de-obra e o capital português aufiram os lucros que iriam, pela importação do artigo, beneficiar outros países».

Entretanto, nos inícios da década de 1920, a Companhia das Fábricas de Vidro na Amora passou por dificuldades financeiras - atingindo, em 1923, um passivo de cerca de 3 000 contos -, pelo que foi decidido alienar a Fábrica de Rego Lameiro. Assim, por escritura de 2 de Maio de 1923, aquela vende a dita fábrica à Companhia Vidreira do Norte de Portugal, pela importância de 2 200 contos.

Do que consta da mencionada escritura e documentos anexos permito-me destacar, pelo seu significado:

a) As duas empresas, por acordo mútuo, deliberaram efectuar uma partilha do mercado nacional de garrafas pretas, pelo rio Mondego, nos seguintes termos: «Dentro da orientação de exercer a nossa acção nas regiões onde exploramos as nossas indústrias [documento da empresa compradora], ficaria assente que essa Companhia [da Amora] não forneceria mais garrafas pretas para a parte do norte do rio Mondego, assim como nós não as forneceremos para o sul do mesmo rio, sob pena de importar responsabilidade por perdas e danos do infractor contra a outra parte»;

b) Por sua vez, em documento emitido pela Amora, confirma-se a importância do mercado nortenho para o artigo “garrafas pretas”. Nele se afirma: «o facto de perdermos a clientela do Porto, a mais importante até hoje para a Companhia por ser aquele o mercado onde tem mais largo consumo a garrafa preta do nosso fabrico, não impede que dediquemos a nossa atenção, dando todo o desenvolvimento de que é susceptível, à Fábrica da Amora, no fabrico de garrafas brancas, frascaria e outros produtos desta indústria».

Em 1925, a unidade em foco já adoptava uma nova designação: “Fábrica de Garrafas RIO DOURO”. Em ofício, então dirigido ao Governador Civil do Porto, indica-se o horário dos turnos adoptados na Fábrica: 1.º, das 8 às 16 horas, com uma hora de descanso das 12 às 13; 2.º, das 16 às 24, com 1 hora de descanso das 20 às 21; e 3.º, das 24 às 8 horas, com uma hora de descanso das 4 às 5 horas. Note-se que este horário dos turnos, diferente do adoptado nas fábricas vidreiras da Marinha Grande (1.º, 5-13; 2.º, 13-21; e 3.º, 21-5 horas), se manteve até hoje, na fábrica Barbosa & Almeida, à qual aludirei em seguida.

3.2. Barbosa & Almeida: de uma pequena empresa comercial a um grande grupo internacional, na produção de vidro de embalagem

Recuando um pouco no tempo, deparamo-nos com a constituição, na cidade do Porto, de uma sociedade comercial, em nome colectivo, denominada Brbosa & Almeida, com sede e seu principal e único estabelecimento sito na rua Mouzinho da Silveira (n.º 44-1.º andar). Foram seus sócios fundadores Raul da Silva Barbosa e Domingos de Almeida, cujos apelidos continuam a constar da firma BA - Fábrica de Vidros Barbosa & Almeida, SA.

Em 1921 (por escritura de 4 de Agosto), constitui-se nova sociedade - Barbosa & Almeida, Ld.ª -, com a entrada de novos sócios e aumento de capital (que passa a ser de 500 contos), continuando a dedicar-se ao ramo comercial.

Por seu turno, em 1930, a sociedade foi remodelada - mantendo, porém a mesma designação -, com a entrada de novos sócios (por cedência de cota de alguns dos anteriores) e um alargamento do respectivo objecto que, além de todas as operações mercantis que a sua gerência julgue convenientes, passaria a incluir igualmente a de «explorar a indústria de vidros na dita sua fábrica e noutras que vier a adquirir». O capital social foi elevado para 1 000 000$00.

Deste modo, a Barbosa & Almeida, de comerciante, de vidros e outros artigos, passava a fabricante de vidro de embalagem (1930), pela aquisição da já referida Fábrica de Rego Lameiro (posteriormente designada, como vimos, Fábrica de Garrafas “Rio Douro”), a qual, aquando da sua aquisição pela Barbosa & Almeida, Ld.ª, pertencia à Empresa de Vidros e Garrafas do Porto, Ld.ª.

Ao fim de uma década de laboração, a unidade vidreira a que nos reportamos era assim publicitada (1940): «Garrafas e garrafões. Todos os tipos e capacidades. Garrafas de litro e meio litro com rolhas de parafuso. Fabrico esmerado e aos mais reduzidos preços. Barbosa & Almeida, Lda. Escritório: Rua Mouzinho da Silveira, 62-1.º. Telefone, 1405 (P. B. X.), PÔRTO» (Memória…, 1940).

Porém, muito mais completo e elucidativo, para o conhecimento da Fábrica de Vidros da Barbosa & Almeida, é um outro documento, precisamente do mesmo ano (“Inventário Geral da Fábrica, em 31 de Dezembro de 1940”), que se encontra no arquivo da empresa. Nele se descrevem, minuciosamente, todos os bens existentes na altura, nas diversas secções da unidade. Através dele ficamos a conhecer: o equipamento, mobiliário e tecnologia instalados, os tipos de artigos fabricados (por meio dos respectivos moldes), as matérias-primas e o combustível utilizados, os produtos em “stock”, etc. Das muitas ilações que daquele se podem tirar saliento apenas os seguintes exemplos:

na casa das máquinas encontravam-se, além do mais, uma máquina a vapor (de 50 HP) e um dínamo-motor (de 20HP);

dispunha, então, de dois fornos: o forno n.º 1, a tanque, sistema “Siemens”; e o forno n.º 2, por certo a potes;

já então eram utilizadas 15 máquinas semiautomáticas, descritas como “máquinas de fazer garrafas e acessórios”;

na casa da composição era usado um britador mecânico;

como meios de transporte próprios ainda se indicam, apenas: um carro, com rodas de ferro, para transportar caixas com garrafas; 4 barcas e acessórios.

O elevado número de moldes referenciado (109 mecânicos e 15 manuais, para garrafas, e 9 para garrafões) revela a grande diversidade de garrafaria produzida. Cerca de um terço dos moldes de garrafas destinava-se ao vinho, com destaque, obviamente, para o Vinho do Porto. Várias empresas, que comercializavam marcas de vinho bem conhecidas (entre as quais, a Companhia Velha, a Ramos Pinto e a Porto Calém), eram, já na altura, clientes da Barbosa & Almeida.

Encontrava-se armazenado um número considerável de garrafas e garrafões (para abastecimento normal, do mercado? Ou já como efeito das dificuldades, resultantes do conflito mundial, desencadeado no ano anterior?); aquelas totalizavam quase um milhão (895 934), na Barbosa & Almeida (em Campanhã) e, os garrafões, empalhados, 22 219. Referenciam-se, também, as existentes noutras fábricas (fornecidas por aquela, à consignação?), nomeadamente nas seguintes : Roldão, Marinha Grande (50 909), Pataias (162 929) e Fontela (12 921).

Não sendo este o lugar adequado para esmiuçar o desenvolvimento da empresa, nas seis décadas imediatas, apenas se referirão alguns factos marcantes dessa trajectória.

O processo de automatização teve início, o mais tardar, em 1947 - pois já então se encontrava instalada uma máquina Lynch, de 6 moldes -, tendo prosseguido até ao final da década de 60, a exemplo do que se verificara, no mesmo período, noutras unidades (como na Santos Barosa e na Ricardo Gallo, na Marinha Grande). Em 1965, com a instalação de uma terceira máquina do mesmo tipo, a respectiva produção semanal aumentou para 350 000 garrafas.

Entretanto, a evolução da empresa, num período de acentuado crescimento económico - última década dos já chamados “30 anos de ouro da economia -, levou a equacionar a problemática da remodelação das instalações, em Campanhã, ou a construção de uma nova unidade, como veio a suceder, em local mais espaçoso e sem os constrangimento de circulação que rodeavam a Fábrica de Rego Lameiro.

Acrescente-se que o desenvolvimento extraordinário da empresa, em meados dos anos 1960, foi estimulado pelo aumento da exportação de garrafas para Espanha. Com efeito, com a proibição da venda de bebidas a granel - e a consequente exigência do seu engarrafamento -, o consumo de garrafas, no país vizinho, mais que duplicou, de 1962 para 1963 (passando de 150 para 360 milhões de unidades). A Espanha passou a ter um défice anual de 1 milhão de garrafas. Consequentemente, pode ler-se num documento da empresa (anexo à acta de 24.11.1964): «exportando para Espanha, ainda que a preço não muito compensador, prolonga-se a nossa campanha vidreira».

Por seu lado, também o mercado português de garrafas se expandia. Como sublinha Gaspar Martins Pereira (Dicionário de História de Portugal, vol. IX, supl., p. 600): «O valor das exportações [de Vinho do Porto] quase triplicou, entre 1960-1964 e 1970-1974, passando dos cerca de 380 mil contos para mais de 1 milhão de contos por ano. Um dos aspectos que mais pesou na valorização do vinho do Porto exportado foi, sem dúvida, o crescimento do peso do vinho engarrafado no conjunto das exportações».

Voltando à Barbosa & Almeida, foi então comprado um terreno para as novas instalações (com uma área de 95 830 m2), no lugar de D. Julião, no limite de Aldeia Nova, freguesia de Avintes, concelho de Vila Nova de Gaia. Graças a um vultuoso investimento (inclusive com o recurso ao financiamento de 25 000 contos, pelo Banco de Fomento Nacional) e ao apoio técnico de uma firma alemã da especialidade (“Glasswerke Ruhr”), a nova unidade, ampla, automatizada e utilizando equipamento do mais moderno então existente, começou a laborar em Setembro de 1969.

Nas últimas três décadas, os responsáveis pela Barbosa & Almeida adoptaram uma estratégia de expansão, internacionalização e modernização, transformando uma empresa, de capital familiar, num grupo cotado em bolsa (desde 1987), o qual detém, actualmente, quatro fábricas a produzir vidro de embalagem, duas em Portugal (uma em Avintes-Vila Nova de Gaia, onde se localiza a respectiva sede do grupo, e outra na Marinha Grande, ex-CIVE) e duas em Espanha.

Registou diversos aumentos de capital, inclusive com a participação de empresas e grupos bem conhecidos (como a Santos Barosa e a Ricardo Gallo, suas congéneres, a SOGRAPE (Sociedade Comercial de Vinhos de Mesa de Portugal, Ld.ª) e, mais recentemente, a SONAE (1998).

A relação da empresa com o vinho (sem esquecer, naturalmente, outros mercados: águas minerais, cerveja, refrigerantes, etc.) e, de modo particular, com o Vinho do Porto continua a ser muito forte. A progressiva substituição da venda de vinho a granel pelo engarrafado teve que ser acompanhada por um aumento considerável na produção de embalagens, para o que também contribui o uso da não reutilização da garrafa. Em 2001, foram vendidos para Vinho do Porto, pela indústria nacional (no país e exportados), 168 milhões de embalagens.

Actualmente, a Barbosa & Almeida é o principal fornecedor do mercado do Vinho do Porto, produzindo vidro de diversas cores: branco, verde, verde escuro e preto. Segundo informação fornecida pela própria Empresa (cuja colaboração me cumpre agradecer, publicamente, com destaque para o seu Director Executivo, Eng.º António Vasconcelos), «para o Vinho do Porto Vintage, Barbosa e Almeida desenvolveu um modelo e cor de vidro especialmente para este produto, tendo em atenção o rigor da óptima vedação/estágio e protecção solar».

É tempo de concluir.  Antes, porém, apenas gostaria de sublinhar:

a) O Douro Litoral (concelhos de vila Nova de Gaia e do Porto), ao longo de mais de século e meio - apenas com uma ligeira interrupção -, têm marcado presença na produção vidreira.

b) Sem esquecer o papel, sempre decisivo, dos empresários - a quem cabe, em última análise, tomar decisões, também no que toca à localização das suas unidades produtivas -, o notável progresso, registado na produção de garrafaria, a partir de 1919, não pode compreender-se sem se considerar a proximidade de um importante mercado, constituído por vários géneros de vinho (do Porto, em primeiro lugar, mas também dos vinhos verdes e dos vinhos da zona do Dão-Lafões).

c) Assim, ao focar-se a importância socioeconómica do vinho, há que aludir ao efeito indutor desse produto, elemento importante da riqueza nacional, bem como ao cluster que o mesmo integra (além da embalagem de vidro e da respectiva rotulagem, a indústria corticeira, ao fornecer as respectivas rolhas, a produção de tanoaria, o transporte e a própria comercialização), bem como ao seu contributo no conjunto das exportações.

FONTES E BIBLIOGRAFIA

BAROSA, José Pedro (1996), «As Fábricas de garrafas da Amora: 1888-1926, I parte: Uma empresa e uma fábrica: 1888-1904», Estudos e Documentos, n.º 2.

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